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sábado, 3 de março de 2012


Dilma nomeia o novo ministro do Duplo Sentido, e ele promete aprender a pôr a minhoca no anzol. Ou: Ministro cita dono de rede de televisão na posse

Ressuscitem Aristófanes. Depois de “As Vespas” e de “As Rãs”, ele precisa escrever “As Minhocas”, em homenagem ao que viu nesta sexta no Palácio do Planalto. Chamem Esopo. Há uma nova fábula em curso, de sentido moral ainda impreciso: “As Minhocas e a Soberana”. Que coisa!
Leiam o que informam Nathalia Passarinho e Priscilla Mendes, no Portal G1. Volto em seguida:
Alvo de críticas por não conhecer o setor que vai comandar, o novo ministro da Pesca, Marcelo Crivella (
PRB-RJ), afirmou nesta sexta-feira (2) que pretende aprender mais sobre a área. “Não quero que a presidente fique triste em ter um ministro da pesca que não é um especialista e que não sabe colocar minhoca num anzol. Mas colocar minhoca no anzol a gente aprende rápido. Pensar nos outros é que é difícil”, afirmou Crivella do discurso de posse nesta sexta-feira (2) no Palácio do Planalto.
Ao discursar depois, a presidente Dilma Rousseff disse que Crivella “é um grande especialista em colocar minhoca no anzol”. “Um grande especialista. Ele é um bom engenheiro, ele é um bom gestor. Tenho certeza que o Crivella vai acrescentar muito às nossas minhocas colocadas no anzol”, afirmou a presidente. Dilma chorou ao lamentar a saída de Luiz Sérgio de sua equipe de ministros. Ela defendeu, porém, a existência de alianças e coalizões políticas como “essência para que o Brasil seja administrado” e disse que, “infelizmente”, às vezes é preciso “prescindir” de algumas pessoas no governo.
Evangélicos
Apontado como uma indicação estratégica para aproximar o governo do setor evangélico, Crivella, que integrava a bancada evangélica no Congresso, citou a religiosidade em seu discurso. O novo ministro também citou o tio, o bispo Edir Macedo, líder da Igreja Universal.
“Quero citar uma lição que sintetiza com simplicidade um bom conceito. Quem pensa nos outros pensa como Deus”, disse. “Peço a Deus que dê sabedoria e discernimento [...] para que continue não ocorrendo no nosso ministério qualquer deslize que desanime o povo e faça um cidadão de bem não sentir orgulho de ser brasileiro”, disse o novo ministro ao concluir o discurso. Sobre as ações necessárias ao setor da pesca e aquicultura, Crivella afirmou que é preciso formar engenheiros ligados ao setor e aumentar o volume de financiamentos.
(…)
Voltei
E aí? Dá para levar isso a sério? Marcelo Crivella foi nomeado para a Pesca. Como não há o que fazer por lá — ou seus antecessores não seriam Ideli Salvatti e  Luiz Sérgio —, vai cuidar, então, da linguagem de duplo sentido.

Sabem como é… Um governo começa metaforizando com a minhoca no anzol e depois vai percorrendo toda a variedade da alegoria zoológica: afoga o ganso; dá tapa na pantera; engole sapo; põe bode na sala; manda a vaca pro brejo; dá uma de macaco e mete a mão em cumbuca; nada de costas em rio que tem piranha…
Nada disso pode ser muito sério. Quando Crivella foi nomeado, escrevi aqui um longo texto, lembrando quem ele era e enfatizando a sua ligação com Edir Macedo, seu tio, dono do PRB, da Igreja Universal e da Rede Record. Um ou outro indagaram: o que tem uma coisa a ver com outra? Ora, perguntem a ele, que citou o tio no discurso de posse. Crivella foi escolhido porque, dizem, é um interlocutor da bancada evangélica, e há contenciosos nessa área — o aborto entre eles. Macedo é, no Brasil, o mais entusiasmado defensor do aborto de que se tem notícia.
Pensemos
Jamais aconteceria, eu sei, e eu não estou igualando as personalidades. Imaginem o que estaria fazendo agora o JEG (Jornalismo da Esgotosfera Governista) se Dilma tivesse nomeado um parente dos Marinho, da Globo, para ao Ministério e se, na posse, ele citasse Roberto, o patriarca, ou alguém da família. Edir Macedo, a gente vê, virou referência dos “blogueiros progressistas”.
Ressuscitem Aristófanes! Chegou a hora de escrever também “Os Jegues”.
Por Reinaldo Azevedo

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