Quando um político se afirma ou vai para o lixo, por Ricardo Noblat
João da Costa, prefeito do Recife, está em São Paulo desde ontem à noite à espera de que a Executiva Nacional do PT decida seu destino.Ou ele será candidato à reeleição, como deseja, ou passará à história do PT como o único prefeito de capital impedido pelo partido de ser candidato à reeleição.
De que o acusam?
De não ser capaz de unir o PT. E também de não ser capaz de unir a chamada Frente Popular formada por partidos que apóiam o PT.
Algum partido da Frente Popular antecipou que lançará candidato ou que apoiará algum candidato de oposição ao PT se João da Costa teimar em concorrer ao segundo mandato?
Não.
Quanto à unidade do PT, ela se estabelecerá em torno de João da Costa ou de qualquer outro nome - basta que Lula, Dilma e o comando nacional do partido queiram.
A Executiva Nacional do PT é formada por 22 membros - 11 da tendência Construindo um Novo Brasil (CNB), majoritária dentro do partido.
O candidato da CNB a prefeito do Recife é o senador Humberto Costa (PT-PE). Se a candidatura dele vingar, sua vaga no Senado caberá a Joaquim Francisco, ex-governador de Pernambuco, ex-PFL, ex-DEM, atualmente no PSB do governador Eduardo Campos.
Neto do ex-governador Miguel Arraes e seu herdeiro político, foi Eduardo quem indicou Joaquim Francisco para suplente de Humberto. Assim como indicou um deputado do PT da linha radical para suplente do senador Armando Monteiro Neto, do PTB.
Se Humberto deixar o Senado, o PSB de Eduardo ganhará um senador. Se Armando Monteiro resolver ser candidato em 2014 à sucessão de Eduardo, cederá a vaga no Senado a um nome do PT. O eleitorado do PTB é conservador. A meta de Eduardo é controlar sua sucessão.
É confortável para o PT o que corre por aí: o PSB de Eduardo só apoiará Fernando Haddad para prefeito de São Paulo se o PT lançar Humberto para candidato a prefeito do Recife.
Nada disso é verdade. O PSB de São Paulo ainda resiste a apoiar Haddad porque acha que ele será derrotado por José Serra (PSDB). Eduardo garantiu a Lula que dará um jeito nisso.
Esta manhã, nas contas de informantes paulistas de Eduardo, 11 dos 22 membros da Executiva Nacional do PT estavam dispostos a votar em Humberto para prefeito, e nove em João da Costa.
O prefeito imagina virar o jogo a seu favor se valendo dos seguintes argumentos:
* A maioria do Diretório Municipal do PT do Recife está com ele.
* Não foi o Diretório, mas a Executiva que ordenou que a escolha do candidato a prefeito se desse por meio de uma prévia. Inventou-se a candidatura do deputado federal Maurício Rands para enfrentar a de João da Costa.
* Houve a prévia. João da Costa ganhou com a vantagem de cerca de 600 votos. Aí a Executiva anulou a prévia alegando que votaram filiados que não estavam aptos. Marcou uma segunda prévia.
* Rands desistiu de disputar a segunda prévia. João da Costa se considera vencedor.
* Se a Executiva Nacional lhe subtrair o direito de ser candidato, João da Costa acha que dispõe de bons argumentos para recuperar o direito na Justiça.
A candidatura do prefeito disparou nas pesquisas de intenção de voto aplicadas nos últimos 30 dias porque ele passou a ser visto no Recife como uma vítima do PT.
Algo parecido aconteceu há oito anos em Fortaleza. Luizianne Lins queria ser candidata a prefeita. A direção nacional queria apoiar a candidatura de Inácio Arruda, do PC do B.
Luizianne ganhou a indicação por apenas um voto de diferença.
As cabeças mais estreladas do PT - entre eles a de José Dirceu - desembarcaram em Fortaleza e pediram votos para Inácio. Luizianne venceu a eleição. Depois reelegeu-se.
Atualização das 15h55 - Pintou um novo casuismo para tirar João da Costa do páreo: a Executiva Nacional marcaria uma nova prévia - a terceira. E ela seria disputada por João da Costa e Humberto Costa. A Executiva teme vir a ser acusada de agir ditatorialmente. Lembrem-se do que está acontecendo em São Paulo: Lula empurrou goela abaixo do PT a candidatura de Haddad. A senadora Marta Suplicy, que pretendia ser candidata, está fora da campanha de Haddad. Pelo menos até agora.
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