Mercosul e autoritarismo
Leia editorial do Estadão de hoje:
O Mercosul será um bloco muito menos comprometido com a democracia
se os presidentes do Brasil, da Argentina e do Uruguai decidirem
afastar o Paraguai, temporária ou definitivamente, e abrirem caminho
para o ingresso da Venezuela, país comandado pelo mais autoritário dos
governantes sul-americanos, o presidente Hugo Chávez. Mesmo sem esse
resultado, qualquer punição imposta ao Paraguai será uma aberração.
Será preciso imputar ao Legislativo e ao Judiciário paraguaios a
violação de uma regra jamais escrita ou mesmo consagrada informalmente
pelos quatro países-membros da união aduaneira.
Até a
deposição do presidente Fernando Lugo, a Constituição de seu país foi
considerada compatível com os valores democráticos. Segundo toda
informação disponível até agora, nenhum item dessa Constituição foi
violado no rapidíssimo processo de impeachment concluído na sexta-feira
passada. Diante disso, nem mesmo o governo brasileiro, em geral afinado
com a orientação dos vizinhos mais autoritários, qualificou como golpe
a destituição de Lugo. Se não foi um golpe, como caracterizar a ação
antidemocrática?
Ataques aos
valores democráticos ocorrem com frequência tanto na Venezuela quanto
em outros países sul-americanos, mas sempre, ou quase sempre, sem uma
palavra de censura das autoridades brasileiras. Ao contrário: a partir
de 2003, a ação diplomática de Brasília tem sido geralmente favorável
aos governos da vizinhança, quando atacam a imprensa, quando se valem
de grupos civis para praticar violências e outros tipos de pressão
contra os oposicionistas e quando trabalham para destroçar as
instituições e moldá-las segundo seus objetivos autoritários.
Não é
preciso lembrar detalhes da ação do presidente Chávez para mostrar como
seu governo se enquadra nessa descrição - embora na Venezuela, segundo
o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, haja excesso de democracia.
Mas o chefão bolivariano é apenas um entre vários dirigentes
sul-americanos com vocação autoritária.
A presidente
Cristina Kirchner é um exemplo especialmente notável. Como presidente
pro tempore do Mercosul, condenou prontamente a destituição do
presidente Lugo e se dispôs a excluir o governo paraguaio da reunião de
cúpula marcada para esta sexta-feira. Mas os compromissos da
presidente argentina com a democracia são notoriamente frágeis. Não há
nada surpreendente nesse fato, porque é muito difícil a convivência do
populismo com os valores democráticos. A incessante campanha do
Executivo argentino contra a imprensa é apenas uma das manifestações da
vocação autoritária dos Kirchners e, de modo geral, dos líderes
peronistas.
Essa
campanha foi levada pelo chanceler argentino, Héctor Timerman, a
Mendoza, onde ministros de Relações Exteriores se reuniram para
preparar o encontro presidencial.
Já na
quarta-feira à noite o ministro argentino falou sobre tentativas da
“direita golpista” de enquadrar os governos da região e atacou o jornal
ABC, de Assunção, acusando-o de haver incitado os políticos a depor o
presidente Lugo. Atacou também os diários La Nación e Clarín, de Buenos
Aires, por haverem, segundo ele, justificado o impeachment do
presidente paraguaio. “Vemos diariamente”, acrescentou, “a ideia de
enquadrar presidentes como Cristina Kirchner, Dilma Rousseff e José
Mujica.”
Não por
acaso o ministro de Relações Exteriores da Venezuela, Nicolás Maduro,
saudou com entusiasmo os colegas argentino e brasileiro, ontem de
manhã, no hotel onde os chanceleres começariam a discutir as sanções ao
Paraguai. O Senado paraguaio tem sido o último obstáculo à inclusão da
Venezuela entre os membros do Mercosul. Os Parlamentos do Brasil, da
Argentina e do Uruguai já aprovaram.
Suspenso ou
afastado o Paraguai, o obstáculo será removido e o Mercosul será
governado pelo eixo Buenos Aires-Caracas. Quaisquer compromissos com a
democracia serão abandonados de fato e as esperanças de uma gestão
racional do bloco serão enterradas. Para precipitar esse desastre
bastará o governo brasileiro acrescentar mais um erro diplomático à
enorme série acumulada a partir de 2003.
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