Janio de Freitas, colunista da Folha, vira o Delúbio do colunismo, sai em defesa dos mensaleiros e diz que julgamento é “político”, que se trata de um confronto entre “conservadores” e “reformistas” e que o único modo de o STF provar isenção é absolvendo os réus
O colunista Jânio de Freitas, da Folha, quem diria? — um monte de gente diria… —, saiu em defesa
dos mensaleios em sua coluna deste domingo. Tirando-se o glacê retórico
do seu texto, é o que se pode e se deve concluir. Aderiu à tese de José
Dirceu, de Lula e do comando do PT: o julgamento do Supremo não teria o
objetivo de determinar a culpa ou a inocência de pessoas acusadas de
crimes. Nada disso! Segundo ele, trata-se de um “julgamento político”, a
opor as “forças reformistas”, que cometeram “erros”, aos conservadores.
Freitas, na
retórica, é o Delúbio Soares do colunismo. Aquele chamava a dinheirama
ilegal do mensalão de “recursos não contabilizados”. O jornalista
rebaixa os crimes à condição de “graves erros”. Mas atenção! Seriam
graves erros cometidos “por forças reformistas” — e isso, no texto e no
pensamento do analista, quer dizer “forças do bem”. Já as forças do
mal, o “conservadorismo”, estariam tentando se aproveitar dessas
falhas!
Muitos não
se darão conta do aspecto sutil e grave da coluna, que certamente capta
uma fermentação que anda nos bastidores do tribunal. Ao chamar o
julgamento de “político”, Janio de Freitas está querendo dizer que ele é
ilegítimo. Ocorre que o JULGAMENTO É CRIMINAL! O político, no caso dos
que detinham mandato, já foi feito pelo Congresso — alguns foram
cassados, outro não!
Freitas
defende em seu texto que o julgamento seja “técnico”. Para que o seja,
tem de se ater às provas, aos elementos do inquérito. Logo, não pode
ser… político! Como político ele diz que é, está pedindo que os
ministros ignorem os fatos e se posicionem sobre outra batalha: a dos
“reformistas” contra os “conservadores”.
Leiam estes dois parágrafos, que encerram a coluna:
Esse, contrariamente ao considerado, é um processo essencialmente político. Opõe o conservadorismo que se valeu e pode voltar a valer-se do grave erro de parte das forças reformistas e, no outro lado, o reformismo, mesmo o reformismo de baixo teor que se revelou.
Esse, contrariamente ao considerado, é um processo essencialmente político. Opõe o conservadorismo que se valeu e pode voltar a valer-se do grave erro de parte das forças reformistas e, no outro lado, o reformismo, mesmo o reformismo de baixo teor que se revelou.
As pressões estão ativadas. Cada ministro, no Supremo, tem de julgar o mensalão com a mais absoluta isenção política. Do contrário, não estaria julgando, mas fazendo política. E sabemos o que os tribunais estão fazendo de fato, quando fazem política.
O colunista
sustenta que estamos diante de um processo político a opor reformistas
(os acusados bonzinhos) e os conservadores (os acusadores malvados). Não
obstante, convida os ministros a… julgar com “isenção política” — ou
estariam “fazendo política”. Não é preciso ser muito bidu para concluir
que está afirmando que só há um modo de o Supremo provar essa isenção:
absolvendo os réus — do contrário, estaria se alinhando com “os
conservadores”.
Logo no
primeiro parágrafo, o autor elogia Ricardo Lewandowski por sua
“serenidade, equilíbrio e segurança” e sustenta que o resultado do
julgamento será “de importância extrema para o futuro da democracia no
Brasil”. Huuummm… Considerando o que vem depois, somos levados a crer
que, caso José Dirceu, o chefe de quadrilha (segundo a PGR), seja
condenado, a democracia estará correndo riscos…
Para provar a sua tese, comete o seguinte parágrafo:
Muitas CPIs têm sido perturbadas pela influência do fator emocional. É assim desde ao menos a esquecida “república do Galeão”, em que oficiais da FAB puseram-se nos papéis de CPI, polícia e Judiciário a propósito, no clímax das emoções, do atentado ao seu ídolo Carlos Lacerda por guarda-costas de Getúlio, à revelia deste. A democracia não se reabilitou, apenas resistiu até 1964.
Muitas CPIs têm sido perturbadas pela influência do fator emocional. É assim desde ao menos a esquecida “república do Galeão”, em que oficiais da FAB puseram-se nos papéis de CPI, polícia e Judiciário a propósito, no clímax das emoções, do atentado ao seu ídolo Carlos Lacerda por guarda-costas de Getúlio, à revelia deste. A democracia não se reabilitou, apenas resistiu até 1964.
O mau
prosélito é socorrido pelo mau historiador. A “República do Galeão” foi
consequência da tentativa de matar Lacerda, não o contrário. E, no caso,
o “ídolo” era a vítima, não o algoz. Ao fazer essa referência, Janio
insinua, o que é um delírio estupefaciente, que as mesmas forças que
derrubaram Getúlio e João Goulart estariam hoje empenhadas em condenar
os mensaleiros. Escrever uma coluna como essa no término da semana em
que o réu principal, José Dirceu, fez uma defesa enfática da aliança do
PT com Paulo Maluf corresponde, lamento dizer, a engabelar os leitores.
Um texto que
começa elogiando Lewandowski, que se desenvolve sustentando que tudo
não passa de um confronto entre “reformistas e conservadores” e que
termina conclamando os ministros do STF a ser isentos é, sem dúvida, um
texto com começo, meio e… finalidade!
Janio de
Freitas não precisará mais se esforçar depois dessa coluna. Nunca mais
conseguirá escrever algo tão ruim. Agora só pode melhorar. Não deixa de
ser um consolo.
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