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sábado, 23 de junho de 2012


Paraguai — Esquerdas latino-americanas criam nova definição de “golpe”. Agora, “golpe” é cumprir a lei!!!

O presidente do Paraguai, Fernando Lugo, não conseguiu, conforme pretendia, adiar o julgamento político no Senado, e o impeachment será votado ainda hoje. No Brasil, para não variar, campeia a bobagem. Lá vem porrada pra cima do Reinaldo Azevedo… Fazer o quê? É do jogo. Alguém tem de escrever o óbvio. Se tiver de ser eu, aceito essa cruz…
José Aparecido Rolon é professor de Relações Internacionais da Unifesp. Escreveu um livro intitulado “Paraguai: transição democrática e política externa”. Já li sua opinião na VEJA Online e no Estadão. Tem um jeito estranho de ver o mundo. Nem sempre o pensamento lógico é científico. Às vezes, a ciência insiste em desafiar o que parece racional e óbvio. Nas ciências humanas e nas ciências sociais, no entanto, quase sempre o desafio à lógica nos remete para o campo da feitiçaria ou da pura ideologia. O nosso “especialista em Paraguai” tem um curioso raciocínio torto, sintetizado na entrevista ao Estadão. Chama de “golpe” a eventual deposição de Lugo e se expressa assim:
“É um golpe na medida em que a oposição se aproveita de qualquer situação para tentar desestabilizá-lo ou mesmo tirá-lo do governo, mas, mesmo assim, estão tentando fazer isso pelas vias legais”.
Heeeinnn??? Como é??? Então se trata de um “golpe” dado de acordo com as leis, é isso? Seguir a lei num país, agora, é golpismo? Se vocês notarem, é o mesmo substrato ideológico que fez com que, no Brasil, muitos intelectuais — liderados por Marilena Chaui e sua vassoura mágica — acusassem a denúncia do mensalão de “tentativa de golpe”. É um conceito novo, inventado pelas esquerdas intelectuais latino-americanas, agora que os socialistas das mais variadas colorações, tonalidades e graus de impureza chegaram ao poder. Explico-me.
Antigamente, na era dos poderes militares na América Latina, “golpe” era rasgar a Constituição e se impor pela força das armas, ainda que, às vezes, com apoio popular. Não custa lembrar que a deposição de governos civis no Chile e no Brasil, para citar dois casos, teve amplo apoio do povo. Depois a coisa desandou. Ali pelo fim dos anos 70, início dos 80, a Venezuela chegou a ser o único país da América Latina, acreditem, com governo civil eleito… O resto do continente estava submetido a forças claramente golpistas. E golpe, reitero, se dá rasgando a Constituição.
Muito bem! Com a chegada das esquerdas ao poder na América Latina, o que se deu pela via eleitoral e segundo a legalidade democrática — construída pelo conjunto das forças políticas —, a palavra “golpe” foi ganhando um novo conteúdo. Como isso se deu? Esses governos passaram a flertar com a ilegalidade em nome de sua “legitimidade popular”. Sem exceção — e isso vale também para Luiz Inácio Apedeuta da Silva —, esses novos líderes passaram a desrespeitar as instituições que lhes garantiram a ascensão. Chávez é o chefe da turma. Seguem o seu padrão, hoje, Evo Morales (Bolívia), Rafael Correa (Equador), Cristina Kirchner (Argentina) e Daniel Ortega (Nicarágua) — Ollanta Humala, no Peru, vocês verão, é questão de tempo… Cada um a sua maneira, e sempre se adequando às necessidades locais, foi dando um jeito de solapar as bases legais que asseguraram a sua própria eleição.
Nota à margem antes que continue — Não! Lula não escapou da tentação autoritária. Ocorre que o sistema político brasileiro é mais complexo do que o desses outros países. Os governantes acima citados (exceção feita a Ortega, na sua volta) chegaram ao poder na esteira de crises institucionais severas. O Apedeuta encontrou um estado organizado e instituições saudáveis. Mensalão e iniciativas para censurar a imprensa traduziram tentativas de atropelar os limites constitucionais, mas foram malsucedidas. Adiante.
Ora, chama-se “golpe” hoje em dia à reação LEGAL das instâncias democráticas ou aos arroubos cesaristas desses governantes de esquerda ou à tentativa, como é o caso do Paraguai, de punir o conluio com forças claramente antidemocráticas, de matriz terrorista, a exemplo dos ditos sem-terra paraguaios. Estamos falando de uma força armada, aliada objetiva do presidente, sim!!!, cuja violência vinha sendo tolerada pelo governo central. Até o momento em que os aloprados decidiram executar seis policiais desarmados. Na reação das forças de segurança, 11 invasores  morreram. Qual é a “culpa” de Lugo? Ter sido tolerante com a violência.
O professor Rolon acredita que Lugo não será impichado. Ao explicar por quê, fica mais claro o que ele chama “golpe”. Segue trecho do Estadão (em vermelho):
Rolon acredita que os custos políticos devem inviabilizar um possível impeachment do presidente Lugo. “Não há clima. Internacionalmente há todo um apoio ao governo, assim como da própria população”. Nesta quinta-feira, pessoas se manifestavam contra o julgamento político de Lugo, apoio que, segundo o professor Rolon, “é um reforço, simbólico, a um governo que traduz de certo modo boa parte das reivindicações dos cidadãos. É um apoio muito importante.”
Ah, agora entendi. Parece que o que define o “golpe” ou não é ser o governo “popular” ou não. Se um presidente transgride a lei e é impopular, como Collor, então pode ser deposto, e isso não é golpe. Se transgride a lei e é popular, como Lula era e, diz-se, Lugo é, então aplicar a lei para contê-lo ou puni-lo é golpe. Em suma, “golpe” é aquilo que não é do agrado da esquerda, pouco importa o que diga a lei.
Se alguém duvida do acerto dessa análise, deve prestar atenção às palavras do próprio Lugo. Ao afirmar que aceitará o resultado do julgamento, seja qual for, afirmou:
“É preciso acatá-lo (o julgamento político), é um mecanismo constitucional, mas, a partir de outras instâncias organizacionais, certamente decidiremos fazer uma resistência para que o âmbito democrático e participativo do Paraguai vá se consolidando”.
Viu, professor Rolon? O eventual impichado nega que seja golpe. Chama o processo de “mecanismo constitucional”. Mas aí ela apela a outra instância, que estaria, então, acima da própria legalidade: as “instâncias organizacionais”. É o busílis de sempre: as esquerdas aceitam a legalidade enquanto esta lhes é útil. Se não é, então optam por outro caminho.
A própria vida de Lugo, convenham, é um emblema dessa ambiguidade e de convicções ou práticas subterrâneas. Enquanto era sacerdote, teve dois filhos (conhecidos!) — o bruto, parece, só seguia a orientação da Igreja ao não usar camisinha; a parte da castidade, ele deixava de lado. Presidente do Paraguai, manteve relações clandestinas, ou nem tanto, com grupos que optaram por práticas terroristas.
A lei — A CONSTITUIÇÃO — agora se encarrega de dizer se fica ou não no poder. E vêm  alguns expertos (ESCREVI COM “X” MESMO!!!) falar em “golpe”???
Caro professor Rolon, “golpe” a favor da lei democraticamente instituída não é golpe, é contragolpe. Ademais, o Parlamento que lá está também foi eleito pelo povo, como Lugo. Na democracia, o poder por excelência da representação é o Legislativo.
Por Reinaldo Azevedo

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