Paraguai — Esquerdas latino-americanas criam nova definição de “golpe”. Agora, “golpe” é cumprir a lei!!!
O
presidente do Paraguai, Fernando Lugo, não conseguiu, conforme
pretendia, adiar o julgamento político no Senado, e o impeachment será
votado ainda hoje. No Brasil, para não variar, campeia a bobagem. Lá vem
porrada pra cima do Reinaldo Azevedo… Fazer o quê? É do jogo. Alguém
tem de escrever o óbvio. Se tiver de ser eu, aceito essa cruz…
José
Aparecido Rolon é professor de Relações Internacionais da Unifesp.
Escreveu um livro intitulado “Paraguai: transição democrática e política
externa”. Já li sua opinião na VEJA Online e no Estadão. Tem um jeito
estranho de ver o mundo. Nem sempre o pensamento lógico é científico. Às
vezes, a ciência insiste em desafiar o que parece racional e óbvio. Nas
ciências humanas e nas ciências sociais, no entanto, quase sempre o
desafio à lógica nos remete para o campo da feitiçaria ou da pura
ideologia. O nosso “especialista em Paraguai” tem um curioso raciocínio
torto, sintetizado na entrevista ao Estadão. Chama de “golpe” a eventual
deposição de Lugo e se expressa assim:
“É um golpe na medida em que a oposição se aproveita de qualquer situação para tentar desestabilizá-lo ou mesmo tirá-lo do governo, mas, mesmo assim, estão tentando fazer isso pelas vias legais”.
“É um golpe na medida em que a oposição se aproveita de qualquer situação para tentar desestabilizá-lo ou mesmo tirá-lo do governo, mas, mesmo assim, estão tentando fazer isso pelas vias legais”.
Heeeinnn???
Como é??? Então se trata de um “golpe” dado de acordo com as leis, é
isso? Seguir a lei num país, agora, é golpismo? Se vocês notarem, é o
mesmo substrato ideológico que fez com que, no Brasil, muitos
intelectuais — liderados por Marilena Chaui e sua vassoura mágica —
acusassem a denúncia do mensalão de “tentativa de golpe”. É um conceito
novo, inventado pelas esquerdas intelectuais latino-americanas, agora
que os socialistas das mais variadas colorações, tonalidades e graus de
impureza chegaram ao poder. Explico-me.
Antigamente,
na era dos poderes militares na América Latina, “golpe” era rasgar a
Constituição e se impor pela força das armas, ainda que, às vezes, com
apoio popular. Não custa lembrar que a deposição de governos civis no
Chile e no Brasil, para citar dois casos, teve amplo apoio do povo.
Depois a coisa desandou. Ali pelo fim dos anos 70, início dos 80, a
Venezuela chegou a ser o único país da América Latina, acreditem, com
governo civil eleito… O resto do continente estava submetido a forças
claramente golpistas. E golpe, reitero, se dá rasgando a Constituição.
Muito bem!
Com a chegada das esquerdas ao poder na América Latina, o que se deu
pela via eleitoral e segundo a legalidade democrática — construída pelo
conjunto das forças políticas —, a palavra “golpe” foi ganhando um novo
conteúdo. Como isso se deu? Esses governos passaram a flertar com a
ilegalidade em nome de sua “legitimidade popular”. Sem exceção — e isso
vale também para Luiz Inácio Apedeuta da Silva —, esses novos líderes
passaram a desrespeitar as instituições que lhes garantiram a ascensão.
Chávez é o chefe da turma. Seguem o seu padrão, hoje, Evo Morales
(Bolívia), Rafael Correa (Equador), Cristina Kirchner (Argentina) e
Daniel Ortega (Nicarágua) — Ollanta Humala, no Peru, vocês verão, é
questão de tempo… Cada um a sua maneira, e sempre se adequando às
necessidades locais, foi dando um jeito de solapar as bases legais que
asseguraram a sua própria eleição.
Nota à
margem antes que continue — Não! Lula não escapou da tentação
autoritária. Ocorre que o sistema político brasileiro é mais complexo do
que o desses outros países. Os governantes acima citados (exceção feita
a Ortega, na sua volta) chegaram ao poder na esteira de crises
institucionais severas. O Apedeuta encontrou um estado organizado e
instituições saudáveis. Mensalão e iniciativas para censurar a imprensa
traduziram tentativas de atropelar os limites constitucionais, mas foram
malsucedidas. Adiante.
Ora,
chama-se “golpe” hoje em dia à reação LEGAL das instâncias democráticas
ou aos arroubos cesaristas desses governantes de esquerda ou à
tentativa, como é o caso do Paraguai, de punir o conluio com forças
claramente antidemocráticas, de matriz terrorista, a exemplo dos ditos
sem-terra paraguaios. Estamos falando de uma força armada, aliada
objetiva do presidente, sim!!!, cuja violência vinha sendo tolerada pelo
governo central. Até o momento em que os aloprados decidiram executar
seis policiais desarmados. Na reação das forças de segurança,
11 invasores morreram. Qual é a “culpa” de Lugo? Ter sido tolerante com
a violência.
O professor
Rolon acredita que Lugo não será impichado. Ao explicar por quê, fica
mais claro o que ele chama “golpe”. Segue trecho do Estadão (em
vermelho):
Rolon acredita que os custos políticos devem inviabilizar um possível impeachment do presidente Lugo. “Não há clima. Internacionalmente há todo um apoio ao governo, assim como da própria população”. Nesta quinta-feira, pessoas se manifestavam contra o julgamento político de Lugo, apoio que, segundo o professor Rolon, “é um reforço, simbólico, a um governo que traduz de certo modo boa parte das reivindicações dos cidadãos. É um apoio muito importante.”
Rolon acredita que os custos políticos devem inviabilizar um possível impeachment do presidente Lugo. “Não há clima. Internacionalmente há todo um apoio ao governo, assim como da própria população”. Nesta quinta-feira, pessoas se manifestavam contra o julgamento político de Lugo, apoio que, segundo o professor Rolon, “é um reforço, simbólico, a um governo que traduz de certo modo boa parte das reivindicações dos cidadãos. É um apoio muito importante.”
Ah, agora
entendi. Parece que o que define o “golpe” ou não é ser o governo
“popular” ou não. Se um presidente transgride a lei e é impopular, como
Collor, então pode ser deposto, e isso não é golpe. Se transgride a lei e
é popular, como Lula era e, diz-se, Lugo é, então aplicar a lei para
contê-lo ou puni-lo é golpe. Em suma, “golpe” é aquilo que não é do
agrado da esquerda, pouco importa o que diga a lei.
Se alguém
duvida do acerto dessa análise, deve prestar atenção às palavras do
próprio Lugo. Ao afirmar que aceitará o resultado do julgamento, seja
qual for, afirmou:
“É preciso acatá-lo (o julgamento político), é um mecanismo constitucional, mas, a partir de outras instâncias organizacionais, certamente decidiremos fazer uma resistência para que o âmbito democrático e participativo do Paraguai vá se consolidando”.
“É preciso acatá-lo (o julgamento político), é um mecanismo constitucional, mas, a partir de outras instâncias organizacionais, certamente decidiremos fazer uma resistência para que o âmbito democrático e participativo do Paraguai vá se consolidando”.
Viu,
professor Rolon? O eventual impichado nega que seja golpe. Chama o
processo de “mecanismo constitucional”. Mas aí ela apela a outra
instância, que estaria, então, acima da própria legalidade: as
“instâncias organizacionais”. É o busílis de sempre: as esquerdas
aceitam a legalidade enquanto esta lhes é útil. Se não é, então optam
por outro caminho.
A própria
vida de Lugo, convenham, é um emblema dessa ambiguidade e de convicções
ou práticas subterrâneas. Enquanto era sacerdote, teve dois filhos
(conhecidos!) — o bruto, parece, só seguia a orientação da Igreja ao não
usar camisinha; a parte da castidade, ele deixava de lado. Presidente
do Paraguai, manteve relações clandestinas, ou nem tanto, com grupos que
optaram por práticas terroristas.
A lei — A
CONSTITUIÇÃO — agora se encarrega de dizer se fica ou não no poder. E
vêm alguns expertos (ESCREVI COM “X” MESMO!!!) falar em “golpe”???
Caro
professor Rolon, “golpe” a favor da lei democraticamente instituída não é
golpe, é contragolpe. Ademais, o Parlamento que lá está também foi
eleito pelo povo, como Lugo. Na democracia, o poder por excelência da
representação é o Legislativo.
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