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quarta-feira, 27 de junho de 2012


Olhem aí: O Itamaraty é tão incompetente que eu e Elio Gaspari concordamos sobre o Paraguai… E uma breve memória sobre o contragolpe que livrou Honduras da ditadura bolivariana

Pois é… O Itamaraty é tão ruim, e a política externa brasileira, tão primitiva, que isso faz com que eu e Elio Gaspari possamos concordar às vezes. Nesta quarta, na Folha, ele escreve uma ótima coluna sobre o assunto — com argumentos que considero sensatos, expostos neste blog desde que teve início a crise. Continua errado sobre Honduras. Leiam a coluna. Volto depois.
A leviana diplomacia do espetáculo
POUCAS VEZES a diplomacia brasileira meteu-se numa estudantada semelhante à truculenta intervenção nos assuntos internos do Paraguai. O presidente Fernando Lugo foi impedido por 39 votos a 4, num ato soberano do Senado.
Nenhum soldado foi à rua, nenhuma linha de noticiário foi censurada, o ex-bispo promíscuo aceitou o resultado, continua vivendo na sua casa de Assunção e foi substituído pelo vice-presidente, seu companheiro de chapa.
Nada a ver com o golpe hondurenho de 2009, durante o qual o presidente Zelaya foi embarcado para o exílio no meio da noite.
Quando começou a crise que levou ao impedimento de Lugo, a diplomacia de eventos da doutora Dilma estava ocupada com a cenografia da Rio+20.
Pode-se supor que a embaixada brasileira em Assunção houvesse alertado Brasília para a gravidade da crise, mas foi a inquietação da presidente argentina Cristina Kirchner que mobilizou o Brasil.
A doutora achou conveniente mobilizar os chanceleres da Unasul, uma entidade ectoplásmica, filha da fantasia do multilateralismo que encanta o chanceler Antonio Patriota.
As relações do Brasil com o Paraguai não podem ser regidas por critérios multilaterais. Foi no mano a mano que o presidente Fernando Henrique Cardoso impediu um golpe contra o presidente Juan Carlos Wasmosy em 1996. Fez isso sem espetacularização da crise. A decisão de excluir o Paraguai da reunião do Mercosul é prepotente e inútil. Quando se vê que o presidente Hugo Chávez, da Venezuela, cortou o fornecimento de petróleo ao Paraguai e que a Argentina foi além nas suas sanções, percebe-se quem está a reboque de quem. Multilateralismo no qual cada um faz o que quer é novidade. Existe uma coisa chamada Mercosul, banem o Paraguai, mas querem incluir nele a Venezuela, que não está na região e muito menos é exemplo de democracia.
Baniu-se o Paraguai porque Lugo foi submetido a um rito sumário. O impedimento seguiu o rito constitucional. Ao novo governo paraguaio não foi dada nem sequer a palavra na reunião que decidiu o banimento.
Lugo aceitou a decisão do Congresso e agora diz que liderará uma oposição baseada na mobilização dos movimentos sociais. Direito dele, mas, se o Brasil se associa a esse tipo de política, transforma suas relações diplomáticas numa espécie de Cúpula dos Povos. Vai todo mundo para o aterro do Flamengo, organiza-se um grande evento, não dá em nada, mas reconheça-se que se fez um bonito espetáculo.
O multilateralismo da diplomacia da doutora Dilma é uma perigosa parolagem. Quando ela se aborreceu, com razão, porque um burocrata da Organização dos Estados Americanos condenou as obras da hidrelétrica de Belo Monte, simplesmente retirou do foro o embaixador brasileiro. A OEA é uma irrelevância, mas para quem gosta de multilateralismo, merece respeito.
A diplomacia brasileira teve um ataque de nervos na bacia do Prata. O multilateralismo que instrui a estudantada em defesa de Lugo é típico de uma política externa biruta. O chanceler Antonio Patriota poderia ter se reunido com o então vice-presidente paraguaio Federico Franco 20 vezes, mas, se a Argentina queria tomar medidas mais duras, ele não deveria ter ido para uma reunião conjunta, arriscando-se ao papel de adorno.
Voltei
Como a divergência é o sal da vida, lembro que o caso de Honduras é, sim, ligeiramente diferente, MAS CONTRA MANUEL ZELAYA. Naquele país, o chapeludo já tinha dado início ao golpe. E foi afastado do poder por um contragolpe.
Zelaya havia decidido fazer um referendo — que tinha o objetivo de criar condições para instituir a reeleição no país — que a Justiça, o Ministério Público e o Congresso haviam declarado ilegal. Como o Poder Judiciário não liberou pessoal para a consulta, ELE DETERMINOU QUE O EXÉRCITO O FIZESSE.
Ou seja, Gaspari: foi Zelaya quem mandou botar na rua a soldadesca contra decisão expressa da Justiça. O nome disso é… GOLPE! Isso tudo é apenas fato. Pode-se constatar numa rápida pesquisa. Apontei todas essas questões à época.
Também Honduras tem a sua Constituição. Por lá, um presidente tramar a própria reeleição é motivo de destituição automática. Quando Zelaya deu uma ordem aos militares que contrariava a Justiça, eles decidiram prendê-lo. Aí há uma parte nebulosa na história.
Conversando com um militar brasileiro que serviu em Honduras e conhece os militares do país, a história é um tantinho diferente da oficial. Zelaya foi preso e seria entregue à Justiça. Foi ele que pediu para deixar o país — e o governo interino consentiu, no que fez muito mal. O maluco decidiu viajar de pijama, o que surpreendeu os militares. Era parte de sua patuscada. Se bem se lembram, o ex-presidente hondurenho é aquele senhor que cobriu as janelas da embaixada brasileira com papel-alumínio para evitar, assegurou, que raios misteriosos, disparados por uma conspiração judaica, interferissem em suas ondas cerebrais.
É com esse tipo de celerado, e até pior (Ahmadinejad, por exemplo), que Celso Amorim se metia. E com gente desse calibre que o Itamaraty continua a se meter.
Ok. Gaspari não vai assumir que errou em relação a Honduras. Não tem importância. É um avanço que esteja certo em relação ao Paraguai.
Por Reinaldo Azevedo

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