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terça-feira, 17 de abril de 2012


A MENTIRA CONTADA PELA FOTO DE LULA E SARNEY NO HOSPITAL. OU: A VERDADEIRA DOENÇA DO BRASIL É O DÉFICIT DE CULTURA DEMOCRÁTICA, NÃO O CÂNCER OU O CORAÇÃO ENTUPIDO

Essa gente brinca com a nossa generosidade, com o nosso bom senso, com a nossa temperança. O presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), está internado no Hospital Sírio-Libanês, onde se submeteu a um cateterismo com implantação de um stent. O Sírio — como é conhecido — precisa tomar cuidado, aliás, para não se transformar numa espécie de Sanatório do Poder. Tenho cá as minhas dúvidas se esse contínuo processo de espetacularização da doença de figurões da República, de que o hospital serve de cenário, faz bem à saúde da instituição, com seus médicos estelares descendo ao térreo para receber autoridades, numa espécie de rendição do sacerdócio da ciência à mundanidade do mando. Nas coletivas em que se tratava do câncer de Lula, por exemplo, havia mais homens de branco para dar entrevistas do que repórteres para ouvir o que eventualmente tinham a dizer. Sei que o Sírio é um hospital sério e não estou pondo isso em dúvida. Mas não terá chegado a hora de pôr um freio no excesso de exposição? Uma questão a se pensar. Adiante.
O Apedeuta foi visitar Sarney no leito. E temos, que surpresa!, mais uma foto de Ricardo Stuckert, do Instituto Lula, com a composição, a luz e o enquadramento meticulosamente  estudados para remeter, reitero, àquelas imagens da Benetton, tornadas célebres pelo fotógrafo italiano Oliviero Toscani. Vejam. Volto em seguida.
benetton-lula-sarney
Voltei
Para que isso? O que se aproveita dessa imagem? Qual é a sua dimensão ou seu interesse público? O que se pretende senão construir a imagem da “humana fragilidade do poder”, apelando ao sentimentalismo? Nada poderia ser mais falso do que isso! Ao contrário: as duas figuras aparentemente frágeis são dois tubarões da política — e só por isso suas respectivas doenças passam por esse processo de espetacularização.
Para ter direito a um leito no Sírio Libanês e ao aporte midiático que o cerca é preciso ser alguém muito além da fragilidade que a foto sugere. Atenção! Não estou aqui barateando as tolices da luta de classes, não, ou sugerindo que ambos se tratem no SUS, que o Apedeuta já chegou a ver “perto da perfeição”. Meu ponto é outro. Estou é acusando uma operação que consiste em criar uma imagem que falsifica a verdade. Ali estão dois oligarcas — ou, se quiserem, duas versões do patrimonialismo brasileiro. Ambos representam esquemas de poder que põem a serviço de grupos o bem público, seja esse bem material ou institucional. Quanto as próprias leis são torcidas para atender a interesses ou quando se faz um esforço em favor de sua aplicação seletiva, é a República que está indo para o brejo.
Torço para que os indivíduos Lula e Sarney se recuperem. Poucas coisas são tão desprezíveis na minha ordem de valores quanto folgar com a doença alheia ou torcer para que um adversário, desafeto, rival — ou simplesmente alguém de quem não se gosta — seja tirado de circulação por algum impedimento trágico. É mostra de covardia moral e intelectual.
Eu quero mais é que esses dois se recuperem de suas respectivas doenças. Mas não abro  mão de denunciar a outra doença que uma imagem como a que vai acima revela: o nosso déficit de cultura democrática. Não é o Senado que passou por um cateterismo, mas o homem José Sarney. Como tal, o decoro recomenda o resguardo que a qualquer outro paciente é cabido e devido. Não é um ex-presidente da República e presidente de honra de um partido que se trata de câncer, mas o indivíduo Luiz Inácio da Silva. Notem que, nesse caso, omiti até a palavra “Lula”, um apelido incorporado a seu nome de batismo em razão da política. Também no seu caso, o decoro perdeu para a politização da doença.
Desagradável
Uma foto como essa requer a colaboração dos modelos. Estão a obedecer instruções precisas do fotografo. Depois de ajustados a cena, o enquadramento, a luz, o foco, o profissional do outro lado da câmera dá a ordem: “Ajam normalmente!” Ora, que normalidade pode haver numa situação assim?
Não descarto que exista afeto mútuo entre Lula e Sarney, a despeito de tudo o que o petista já disse sobre o peemedebista e sua família. É a amor fraterno que nasce do mutualismo político, não é? O Apedeuta submeteu a biografia de seu antigo desafeto à lavanderia de reputações do petismo, que tanto lava como suja biografias, a depender do interesse. E Sarney emprestou a Lula o domínio daquelas áreas do Congresso infensas a qualquer processo de modernização. Assim se juntaram dois atrasos: o contemporâneo e o arcaico.
De resto, questiono o gosto de uma imagem assim, que já vai virando um clichê da política brasileira, sempre pela lente de Ricardo Stuckert, sempre no Sírio-Libanês e sempre com o mesmo propósito. Todas as fotos são derivações de uma campanha da Benetton em que uma família chora a morte iminente de um paciente de Aids. Que importa se esse tipo de exploração busca ganhar dinheiro, votos ou simpatia popular? É indecorosa em qualquer caso. Vejam. Volto para arrematar.
Lula e Dilma visitam José Alencar: o câncer como política
Lula e Dilma visitam José Alencar: o câncer como política
Aí chegou a vez de Dilma e Mantega fazerem uma visita a Lula
Aí chegou a vez de Dilma e Mantega fazerem uma visita a Lula
A inspiração das fotos brasileiras é da campanha da Benetton, só que suavizada pelo nosso jeitinho...
A inspiração das fotos brasileiras é da campanha da Benetton, só que suavizada pelo nosso jeitinho...
Voltei
Ousado mesmo, então, seria algo como a montagem em que Barack Obama e Hugo Chávez aparecem trocando um beijo. Vejam.
benetton-obama-chavez
Mas falo de ousadia para valer, entendem? No dia em que Lula aparecer trocando uma bicoca com Sarney ou com outro oligarca qualquer, então aplaudirei, enfim, uma imagem que traduz a verdade do que vai pelo país.
Não publicarei comentários que façam qualquer alusão desairosa à saúde das personagens das fotos. Os petralhas costumam mandar as coisas mais escabrosas na esperança de que sejam publicadas para, então, boquejar: “Vejam o que ele deixou passar!”
Não! Nós, por aqui, torcemos pela saúde das pessoas e pela saúde das instituições.
Por Reinaldo Azevedo
16/04/2012
às 18:20

No ataque à imprensa livre, Marco Maia não poupa nem a verdade. Ou: Totalitários vão perder de novo!

Caso Demóstenes na VEJA que começou a chegar aos leitores no dia 4 de março
Caso Demóstenes na VEJA que começou a chegar aos leitores no dia 4 de março
O presidente da Câmara, Marco Maia (PT-RS), tem dificuldades para lidar com o estado democrático e de direito. Há dias, ele suspendeu uma sessão na Câmara, em que se votava um projeto que era do interesse do Executivo, porque um de seus estafetas foi rebaixado num desses cargos de confiança que fazem a desgraça do país. Se Maia tem seu interesse pessoal contrariado, ele faz o quê? Manda a instituição às favas. Em janeiro, viajou para a Alemanha, entre os dias 22 e 30,  e não avisou ninguém. Por determinação legal, deveria ter passado o cargo à primeira vice-presidente da Casa, a deputada Rose de Freitas (PMDB-ES). Não fez isso. Maia não serve à Câmara; é a Câmara que serve a Maia. Seus métodos heterodoxos causam constrangimento até mesmo no petismo, onde as franjas éticas são sabidamente enormes. O homem, é bom notar, é fruto de uma crise de liderança do partido, que é herdeira lá do mensalão. Como aquela tramoia atingiu boa parte das cabeças coroadas da legenda, sobrou espaço para a ascensão do baixo clero petista, de que ele é emblema.
Neste domingo, Maia resolveu publicar em seu blog uma nota atacando — NÃO CONTESTANDO, QUE ISSO ELE NÃO SABE FAZER —a reportagem de capa da VEJA. O texto demonstra como parte do PT quer usar o caso Cachoeira, que demanda a mais rigorosa e implacável investigação, para criar a farsa de que o mensalão nunca existiu. Maia, como fica explícito no texto, contribui para a pantomima. Ele ficou zangado com a revista! Estivesse presidindo a Câmara, teria suspendido a sessão… Não podendo fazê-lo, resolveu publicar uma nota em seu blog recheada de tolices e mentiras. Ela segue em vermelho. Comento em azul.
Tendo em vista a publicação, na edição desta semana, de mais uma matéria opinativa por parte da revista Veja do Grupo Abril, desferindo um novo ataque desrespeitoso e grosseiro contra minha pessoa, sinto-me no dever de prestar os esclarecimentos a seguir em respeito aos cidadãos brasileiros, em especial aos leitores da referida revista e aos meus eleitores:
Os milhões de leitores da VEJA, estou certo, conhecem tanto a revista como a atuação de Maia, marcada pelo amor às instituições que se vê acima. Este deputado não é juiz da imprensa, que se orienta segundo as leis consolidadas pela democracia brasileira e a vigilância dos leitores. Maia, como se nota, está no polo oposto. Se achar conveniente, viola a lei; se achar conveniente, prefere a versão ao fato. “Desrespeitoso e grosseiro” é recorrer a subterfúgios para tentar intimidar o jornalismo independente, objetivo que ele não vai lograr.
- a decisão de instalação de uma CPMI, reunindo Senado e Câmara Federal, resultou do entendimento quase unânime por parte do conjunto de partidos políticos com representação no Congresso Nacional sobre a necessidade de investigar as denúncias que se tornaram públicas, envolvendo as relações entre o contraventor conhecido como Carlinhos Cachoeira com integrantes dos setores público e privado, entre eles a imprensa;
A dimensão pública da imprensa está em noticiar aquilo que apura, doa a quem doer. Na Venezuela, no Equador, na Bolívia, na Nicarágua ou na Argentina, para ficar na América Latina, os poderosos de turno se arvoram hoje em juízes da imprensa, num trabalho claro de intimidação do jornalismo. No Brasil, parte importante do PT tenta constranger a imprensa e criar óbices à liberdade de informação desde os primeiros dias de 2003. A legenda que foi, quando na oposição, fonte permanente de denúncias contra sucessivos governos tornou-se, uma vez no poder, adversária do jornalismo investigativo. Antes, contava com a imprensa para a denúncia estridente; depois, passou a exigir dela o silêncio cúmplice.
- não é verdadeira, portanto, a tese que a referida matéria tenta construir (de forma arrogante e totalitária) de que esta CPMI seja um ato que vise tão somente confundir a opinião pública no momento em que o judiciário prepara-se para julgar as responsabilidades de diversos políticos citados no processo conhecido como “Mensalão”;
Arrogante e totalitário é negar a evidência dos fatos. O presidente do PT, o senhor Rui Falcão, gravou um
vídeo em que explicita a tática de usar a quadrilha de Cachoeira para esconder os crimes da quadrilha do mensalão. Denunciei aqui essa manobra no dia 1º de abril, diga-se. Uma boa data: manobras de petistas combinam com o Dia da Mentira.
- também não é verdadeira a tese, que a revista Veja tenta construir (também de forma totalitária), de que esta CPMI tem como um dos objetivos realizar uma caça a jornalistas que tenham realizado denúncias contra este ou aquele partido ou pessoa. Mas posso assegurar que haverá, sim, investigações sobre as graves denúncias de que o contraventor Carlinhos Cachoeira abastecia jornalistas e veículos de imprensa com informações obtidas a partir de um esquema clandestino de arapongagem;
Em primeiríssimo lugar, sem a definição do objeto da CPMI, o Napoleão de si mesmo da Câmara não pode “assegurar” coisa nenhuma sobre o andamento da comissão de inquérito. Esquema clandestino de arapongagem? Eis um setor de que muitos companheiros de Maia são especialistas. Como ignorar, por exemplo, que o notório Dadá, uma das peças-chave da gangue de Cachoeira, participava do tal grupo de pré-campanha petista em 2010 que tentou forjar mais um dossiê contra o tucano José Serra? Quem denunciou o esquema criminoso? Uma reportagem da VEJA.
- vale lembrar que, há pouco tempo, um importante jornal inglês foi obrigado a fechar as portas por denúncias menos graves do que estas. Isto sem falar na defesa que a matéria da Veja faz da cartilha fascista de que os fins justificam os meios ao defender o uso de meios espúrios para alcançar seus objetivos;
Fascista é recorrer à intimidação, como faz o senhor Marco Maia. Fascista é alimentar delinquentes do subjornalismo para tentar difamar os profissionais que cumprem o seu dever. Se há veículos recorrendo a práticas parecidas com as do “News of the World”, o jornal a que se refere o presidente da Câmara, esses estão entre os esbirros do petismo, entre os aliados do deputado que ora vocifera. Aliás, os vigaristas brasileiros conseguem ser mais deletérios do que os da Inglaterra porque são, reitero, financiados com dinheiro público. Totalitário é usar a estrutura e os recursos do estado para atacar adversários, desafetos e a imprensa livre.
- afinal, por que a revista Veja é tão crítica em relação à instalação desta CPMI? Por que a Veja ataca esta CPMI? Por que a Veja, há duas semanas, não publicou uma linha sequer sobre as denúncias que envolviam até então somente o senador Demóstenes Torres, quando todos (destaco “todos”) os demais veículos da imprensa buscavam desvendar as denúncias? Por que não investigar possíveis desvios de conduta da imprensa? Vai mal a Veja!;
Marco Maia mente! É simples assim. Por que ele não exibe uma reportagem de VEJA, da revista ou da VEJA.com, que demonstre ser a publicação “crítica em relação à instalação da CPMI”? Não exibe porque não existe. A afirmação só serve para excitar a fúria daquela gente hoje empenhada em livrar a cara da quadrilha do mensalão. Quanto às acusações contra Demóstenes — E É NOTÁVEL QUE ELE, A EXEMPLO DE FALCÃO, SILENCIE SOBRE AS DENÚNCIAS CONTRA AGNELO QUEIROZ —, dizer o quê? VEJA foi o primeiro veículo impresso a tratar do assunto. Está na edição Nº 2259 de VEJA, que começou a chegar aos leitores no dia 4 de março. Marco Maia mente de forma descarada: a revista noticiou o caso com uma semana de antecedência, como prova a imagem no alto deste post. Quanto à questão mais geral, resta o óbvio: nas democracias, é a imprensa livre que investiga o poder; nos regimes totalitários, ao gosto de Maia, é o poder que investiga a imprensa livre. Vai mal a Câmara!
- o que mais surpreende é o fato de que, em nenhum momento nas minhas declarações durante a última semana, falei especificamente sobre a revista, apontei envolvidos, ou mesmo emiti juízo de valor sobre o que é certo ou errado no comportamento da imprensa ou de qualquer envolvido no esquema. Ao contrário, apenas afirmei a necessidade de investigar tudo o que diz respeito às relações criminosas apontadas pelas Operações Monte Carlo e Vegas;
Este senhor padece de alguma espécie de paralaxe moral. Neste parágrafo, nega o que seu próprio texto afirma: a necessidade de investigar a imprensa, a necessidade de investigar o mensageiro, de lhe cortar a cabeça.
- não é a primeira vez que a revista Veja realiza matérias, aparentemente jornalísticas, mas com cunho opinativo, exagerando nos adjetivos a mim, sem sequer, como manda qualquer manual de jornalismo, ouvir as partes, o que não aconteceu em relação à minha pessoa (confesso que não entendo o porquê), demonstrando o emprego de métodos pouco jornalísticos, o que não colabora com a consolidação da democracia que tanto depende do uso responsável da liberdade de imprensa.
Dep. Marco Maia,
Presidente da Câmara dos Deputados
Em 15 de abril de 2012
Eu entendo a alma deste gigante da democracia. As “matérias aparentemente jornalísticas” da VEJA contribuíram para que a presidente Dilma Rousseff mandasse para casa nada menos de seis ministros acusados ou suspeitos de corrupção, com a demissão de uma corja de larápios que estavam aboletados no serviço público. E muitos ainda restaram. É compreensível que alguém com o perfil deste Maia — capaz de suspender um sessão da Câmara porque contrariado numa nomeação ou de viajar à socapa, sem cumprir seu dever constitucional — se incomode com a imprensa livre. Que sonho não seria poder agir livremente, sem prestar contas à ninguém, não é!? Pois é… Não será assim! Tanto a gangue de Cachoeira como a gangue do mensalão terão de prestar contas à opinião pública, às leis, às instituições, ao Congresso.
Marco Maia é mero esbirro daquela banda do PT que empenhada em transformar bandidos em heróis da democracia, quadrilheiros em salvadores da pátria, notórios ladrões do dinheiro público em exemplares amantes da democracia. Não por cima dos fatos! Não por cima das evidências!
Esse trabalho de pistolagem contra a imprensa independente e livre não vai funcionar de novo! Curiosamente, quem se mostra preocupado com a CPMI é o PT, que luta desesperadamente para tentar proteger do aluvião o governador do Distrito Federal e aquela que é a principal construtora do PAC. A imprensa que se preza continuará a fazer o seu trabalho. Até porque, para atuar, só pede autorização aos fatos. Os que estão nesse ramo cometendo crime de mando é que precisam da autorização do patrocinador… Observem como jamais criticam quem lhes paga as contas…
Por Reinaldo Azevedo

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