Íntegra do discurso em que Lula pede desculpas pela existência do mensalão
Granja do Torto, 12 de agosto de 2005
Meus amigos,
Minhas amigas.
Boa tarde,
Meu querido companheiro José Alencar, vice-presidente da República e ministro da Defesa,
Minhas companheiras ministras e ministros, que participam desta reunião.
Minhas amigas.
Boa tarde,
Meu querido companheiro José Alencar, vice-presidente da República e ministro da Defesa,
Minhas companheiras ministras e ministros, que participam desta reunião.
Fiz questão
de que as minhas palavras neste encontro de trabalho fossem abertas à
população brasileira. Temos assuntos importantes a discutir que dizem
respeito a toda sociedade. Mas, antes de mais nada, quero saudar em
especial os novos ministros que vêm reforçar a nossa capacidade de ação
nesta segunda metade do meu mandato. Vocês estão entrando num governo,
que apesar de todas as dificuldades, fez o Brasil retomar o caminho do
progresso e da justiça social.
Voltamos a
crescer, mas desta vez de maneira sustentável, com a inflação baixa e, o
que é mais importante, gerando milhões de empregos no campo e nas
cidades. Tenho certeza de que o povo sente a diferença, o país está
mudando para melhor.
A inflação é
a menor dos últimos cinco anos, a produção industrial registra aumentos
sucessivos. Na balança comercial as exportações ultrapassam a casa dos
110 bilhões de dólares nos últimos doze meses. É o melhor resultado da
nossa história.
Mas o que
mais me orgulha, pela minha história e pelo compromisso que tenho com a
gente humilde da nossa terra, é a forte retomada da oferta de trabalho.
Em 30 meses já criamos 3 milhões, 135 mil novos empregos com carteira
assinada. Isso significa 104 mil novas vagas formais por mês, 12 vezes
mais que a média dos anos 90, sem falar nos postos de trabalho no
mercado informal e na agricultura familiar.
Criamos um
ambiente favorável para a volta dos investimentos. Projetos no valor de
mais de 20 bilhões de dólares já estão programados para entrar em
operação na nossa economia.
Novas
frentes de expansão em energia elétrica, transportes, novas fábricas e
construções fizeram a produção de bens de capital crescer 10% nos
últimos dois meses. Na área social, 7 milhões e 500 mil famílias de
brasileiros mais humildes têm garantido o acesso a uma renda mínima
através do programa Bolsa Família. Até o final do ano, 8 milhões e 700
mil lares serão beneficiados pelo programa.
Uma
revolução está em marcha no mercado de consumo popular no nosso país.
Expandimos o crédito com desconto em folha e muitos trabalhadores
puderam pagar as suas dívidas e comprar uma geladeira, um fogão ou outro
bem desejado por suas famílias.
Por isso, as
vendas nesse setor cresceram 21% no segundo trimestre, comparado ao
mesmo período de 2004. Este país não pode parar. Tenho certeza de que
este é o desejo da sociedade brasileira.
Companheiros, ministros e ministras,
Estou
consciente da gravidade da crise política. Ela compromete todo o sistema
partidário brasileiro. Em 1980, no início da redemocratização decidi
criar um partido novo que viesse para mudar as práticas políticas,
moralizá-las e tornar cada vez mais limpa a disputa eleitoral no nosso
país.
Ajudei a
criar esse partido e, vocês sabem, perdi três eleições presidenciais e
ganhei a quarta, mantendo-me sempre fiel a esses ideais, tão fiel quanto
sou hoje. Quero dizer a vocês, com toda a franqueza, eu me sinto
traído. Traído por práticas inaceitáveis das quais nunca tive
conhecimento.
Estou indignado pelas revelações que aparecem a cada dia, e que chocam o país. O
PT foi criado justamente para fortalecer a ética na política e lutar ao
lado do povo pobre e das camadas médias do nosso país. Eu não mudei e,
tenho certeza, a mesma indignação que sinto é compartilhada pela grande
maioria de todos aqueles que nos acompanharam nessa trajetória.
Mas
não é só. Esta é a indignação que qualquer cidadão honesto deve estar
sentindo hoje diante da grave crise política. Se estivesse ao meu
alcance, já teria identificado e punido exemplarmente os responsáveis
por esta situação. Por ser o primeiro mandatário da nação,
tenho o dever de zelar pelo estado de direito. O Brasil tem instituições
democráticas sólidas. O Congresso está cumprindo com a sua parte, o
Judiciário está cumprindo com a parte dele. Meu governo, com as ações da
Polícia Federal, estão investigando a fundo todas as denúncias. Determinei,
desde o início, que ninguém fosse poupado, pertença ao meu Partido ou
não, seja aliado ou da oposição. Grande parte do que foi descoberto até
agora veio das investigações da Policia Federal.
E vamos continuar assim até o fim, até que todos os culpados sejam responsabilizados e entregues à Justiça.
Mesmo sem prejulgá-los, afastei imediatamente os que foram mencionados
em possível desvio de conduta para facilitar todas as investigações. Mas
isso só não basta. O Brasil precisa corrigir as distorções do
seu sistema partidário eleitoral, fazendo urgentemente a tão sonhada
reforma política. É necessário punir corruptos e corruptores, mas também
tomar medidas drásticas para evitar que essa situação continue a se
repetir no futuro.
Quero dizer
aos Ministros que é obrigação do governo, da oposição, dos empresários,
dos trabalhadores e de toda a sociedade brasileira não permitir que esta
crise política possa trazer problema para a economia brasileira, para o
crescimento deste país, para a geração de empregos e para a
continuidade dos programas sociais. Temos que arregaçar as mangas e
redobrar esforços. Peço que aumentem, ainda mais, a sua dedicação. Se
atualmente vocês,
Ministros e
Ministras, trabalham até 11 h da noite, trabalhem um pouco mais, até
meia noite, uma hora da manhã, porque nós sabemos que muito já fizemos,
mas muito mais temos que fazer porque o Brasil precisa de nós.
Queria,
neste final, dizer ao povo brasileiro que eu não tenho nenhuma vergonha
de dizer ao povo brasileiro que nós temos que pedir desculpas. O PT tem
que pedir desculpas. O governo, onde errou, tem que pedir desculpas,
porque o povo brasileiro, que tem esperança, que acredita no Brasil e
que sonha com um Brasil com economia forte, com crescimento econômico e
distribuição de renda, não pode, em momento algum, estar satisfeito com a
situação que o nosso país está vivendo.
Quero dizer a
vocês: não percam a esperança. Eu sei que vocês estão indignados e eu,
certamente, estou tão ou mais indignado do que qualquer brasileiro. E
nós iremos conseguir fazer com que o Brasil consiga continuar andando
para frente, marchando para o desenvolvimento, para o crescimento da
riqueza e para a distribuição de renda. E eu tenho certeza que posso
contar com o povo brasileiro.
Muito obrigado.
Tags: Lula, mensalão do PT
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