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sexta-feira, 1 de junho de 2012


Violência retórica na CPI e estrelismo só colaboram com os acusados

Há determinadas atitudes que colaboram para o mundo do espetáculo, mas com pouco ou  nenhum efeito prático — isso quando não são contraproducentes; vale dizer: produzem o efeito contrário ao pretendido. É o caso do destempero de hoje do deputado Silvio Costa (PTB-PE), que decidiu vituperar contra o senador Demóstenes Torres na sessão da CPI. Conforme o esperado e o anunciado, Demóstenes optou por ficar calado. Costa mandou ver, em sessão que sabia televisionada, para a galera:
“O seu silêncio é a mais perfeita tradução da sua culpa. Esse seu silêncio escreve em letras garrafais: ‘eu, Demóstenes Torres, sou, sim, membro da quadrilha de Carlinhos Cachoeira. Eu, senador Demóstenes Torres, sou, sim, o braço legislativo da quadrilha do senhor Cachoeira. Se o céu existir, e tenho certeza que o céu existe, o senhor não vai pro céu, porque o céu não é lugar de mentiroso, de gente hipócrita”.
Todos temos a vontade de dizer a mesma coisa? E daí? O ponto é outro. O senador Pedro Taques (PDT-MT), que tem tido uma atuação muito firme na CPI contra a quadrilha de Cachoeira — e não consta que esteja interessado em proteger qualquer dos lados envolvidos — protestou contra a linguagem do deputado e lembrou que Demóstenes estava usando uma prerrogativa legal e que o exercício de humilhação era desnecessário. Costa voltou, então, a metralhadora contra Taques, acusando-o de estar comprometido com Demóstenes. Fora do microfone, disparou: “Seu demagogo, seu merda, seu merda”. Por que alguém seria um demagogo pedindo o devido respeito a Demóstenes, eis um mistério.
Ao discursar mais tarde no Senado, Taques reiterou sua reprovação ao comportamento de Costa e afirmou que Demóstenes foi desnecessariamente humilhado, embora tenha reiterado suas críticas ao senador acusado de envolvimento com Cachoeira. E obteve a solidariedade de representantes do PP (Ana Amélia), do PT (Eduardo Suplicy), do PSDB (Álvaro Dias) e do PSOL (Ranfolfe Rodrigues). Mais suprapartidário, quase impossível.
Contraproducente
Vamos ver. Não há a menor e a mais remota razão para desconfiar de que Pedro Taques esteja mancomunado com Demóstenes. Ao contrário: a menos que estejamos diante de mais um caso de “Dr. Jekyll e Mr. Hyde” (já basta um, né?), ele está atuando no polo contrário. A solidariedade que obteve ao discursar no Senado dá conta da bobagem que fez o deputado Silvio Costa.
E aqui lhe faço uma advertência, por mais que estivesse sinceramente indignado: ainda que o senhor tivesse combinado a sua atuação com Antonio Carlos de Almeida Castro, o Kakai, advogado de Demóstenes, a coisa não teria saído tão a contento do acusado, deputado! A imagem de vítima, de alguém humilhado, que está passando por um linchamento, só faz bem à defesa. Mesmo o pior facínora, quando humilhado, desperta simpatias. A gritaria também mobiliza o espírito de corpo do Senado. Faz com que cada parlamentar se sinta, ainda que não tenha motivos para isso, no lugar do colega. No depoimento prestado no Conselho de Ética, Demóstenes soube exercer a humildade decorosa. Seguiu o script. O que o senhor conseguiu, deputado Silvio Costa, foi criar um contraste entre a civilidade de um fórum e a suposta barbárie de outro.
Resista à tentação, deputado! O seu estrelismo desta tarde só colabora… com os acusados!
Por Reinaldo Azevedo

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