Violência retórica na CPI e estrelismo só colaboram com os acusados
Há
determinadas atitudes que colaboram para o mundo do espetáculo, mas com
pouco ou nenhum efeito prático — isso quando não são
contraproducentes; vale dizer: produzem o efeito contrário ao
pretendido. É o caso do destempero de hoje do deputado Silvio Costa
(PTB-PE), que decidiu vituperar
contra o senador Demóstenes Torres na sessão da CPI. Conforme o
esperado e o anunciado, Demóstenes optou por ficar calado. Costa mandou
ver, em sessão que sabia televisionada, para a galera:
“O seu silêncio é a mais perfeita tradução da sua culpa. Esse seu silêncio escreve em letras garrafais: ‘eu, Demóstenes Torres, sou, sim, membro da quadrilha de Carlinhos Cachoeira. Eu, senador Demóstenes Torres, sou, sim, o braço legislativo da quadrilha do senhor Cachoeira. Se o céu existir, e tenho certeza que o céu existe, o senhor não vai pro céu, porque o céu não é lugar de mentiroso, de gente hipócrita”.
“O seu silêncio é a mais perfeita tradução da sua culpa. Esse seu silêncio escreve em letras garrafais: ‘eu, Demóstenes Torres, sou, sim, membro da quadrilha de Carlinhos Cachoeira. Eu, senador Demóstenes Torres, sou, sim, o braço legislativo da quadrilha do senhor Cachoeira. Se o céu existir, e tenho certeza que o céu existe, o senhor não vai pro céu, porque o céu não é lugar de mentiroso, de gente hipócrita”.
Todos temos a
vontade de dizer a mesma coisa? E daí? O ponto é outro. O senador Pedro
Taques (PDT-MT), que tem tido uma atuação muito firme na CPI contra a
quadrilha de Cachoeira — e não consta que esteja interessado em proteger
qualquer dos lados envolvidos — protestou contra a linguagem do
deputado e lembrou que Demóstenes estava usando uma prerrogativa legal e
que o exercício de humilhação era desnecessário. Costa voltou, então, a
metralhadora contra Taques, acusando-o de estar comprometido com
Demóstenes. Fora do microfone, disparou: “Seu demagogo, seu merda, seu merda”. Por que alguém seria um demagogo pedindo o devido respeito a Demóstenes, eis um mistério.
Ao discursar
mais tarde no Senado, Taques reiterou sua reprovação ao comportamento
de Costa e afirmou que Demóstenes foi desnecessariamente humilhado,
embora tenha reiterado suas críticas ao senador acusado de envolvimento
com Cachoeira. E obteve a solidariedade de representantes do PP (Ana
Amélia), do PT (Eduardo Suplicy), do PSDB (Álvaro Dias) e do PSOL
(Ranfolfe Rodrigues). Mais suprapartidário, quase impossível.
Contraproducente
Vamos ver. Não há a menor e a mais remota razão para desconfiar de que Pedro Taques esteja mancomunado com Demóstenes. Ao contrário: a menos que estejamos diante de mais um caso de “Dr. Jekyll e Mr. Hyde” (já basta um, né?), ele está atuando no polo contrário. A solidariedade que obteve ao discursar no Senado dá conta da bobagem que fez o deputado Silvio Costa.
Vamos ver. Não há a menor e a mais remota razão para desconfiar de que Pedro Taques esteja mancomunado com Demóstenes. Ao contrário: a menos que estejamos diante de mais um caso de “Dr. Jekyll e Mr. Hyde” (já basta um, né?), ele está atuando no polo contrário. A solidariedade que obteve ao discursar no Senado dá conta da bobagem que fez o deputado Silvio Costa.
E aqui lhe
faço uma advertência, por mais que estivesse sinceramente indignado:
ainda que o senhor tivesse combinado a sua atuação com Antonio Carlos de
Almeida Castro, o Kakai, advogado de Demóstenes, a coisa não teria
saído tão a contento do acusado, deputado! A imagem de vítima, de alguém
humilhado, que está passando por um linchamento, só faz bem à defesa.
Mesmo o pior facínora, quando humilhado, desperta simpatias. A gritaria
também mobiliza o espírito de corpo do Senado. Faz com que cada
parlamentar se sinta, ainda que não tenha motivos para isso, no lugar do
colega. No depoimento prestado no Conselho de Ética, Demóstenes soube
exercer a humildade decorosa. Seguiu o script. O que o senhor conseguiu,
deputado Silvio Costa, foi criar um contraste entre a civilidade de um
fórum e a suposta barbárie de outro.
Resista à tentação, deputado! O seu estrelismo desta tarde só colabora… com os acusados!
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