A pornográfica disputa no PT de Recife. Ou: O que ocorre quando a herança leninista é interpretada por Lula e Humberto Costa, sob os auspícios de Eduardo Campos
Escrevi um post na sexta passada
sobre o confronto no PT de Recife. A direção nacional e estadual do
partido e o governador Eduardo Campos, que é do PSB, querem o atual
prefeito, João da Costa, fora da disputa. Ele venceu as prévias
disputadas contra Maurício Rands, mas a Executiva Nacional do PT anulou o
processo, embora tenha negado ter havido fraude. Anulou, então, por
quê? João começou a se indispor com o establishment petista de
Pernambuco por causa do contrato milionário de coleta de lixo. O
primeiro a puxar o seu tapete foi o antecessor, João Paulo, que o fez
candidato. Observei, então, que não é raro que os confrontos nesse
partido comecem no lixo - e quase sempre acabam lá também.
Muito bem!
Ao anular as prévias, é claro que João foi vítima de um golpe,
desfechado pela direção nacional, com o endosso de Lula — curiosamente, a
coisa tem franjas até em São Paulo, já digo como. Mas o imbróglio ainda
não estava completo. Depois de um encontro com o Babalorixá de Banânia,
Rands decidiu renunciar à pré-candidatura. O pressuposto era que o
prefeito fizesse o mesmo — e tal intenção chegou a ser anunciada à sua
revelia — em benefício de outro Costa, o Humberto. O golpe completo,
então, é este: os dois postulantes caem fora em benefício do senador
Humberto Costa, que surgiria como um tertius — um estranho tertius,
já que sempre esteve ao lado de Rands. O senador é um que sempre atuou
contra o prefeito de seu próprio partido. Como é bastante influente no
Estado e tem “contatos” na imprensa local, a vida do prefeito, que já
não faz uma administração brilhante, virou um inferno.
Isso é o que
o PT faz com aliados incômodos. Dá uma medida de como costuma tratar
adversários. Não tenho a menor simpatia pelo atual prefeito. Embora seja
certamente uma falha, confesso saber pouco da política recifense em
particular. Mas entendo que um prefeito, no exercício do mandato,
havendo reeleição, tem a prerrogativa de disputar o cargo novamente, a
menos que pese contra ele uma séria acusação ou de desvio de conduta ou
de desvio dos objetivos partidários. O PT não acusa o atual prefeito nem
de uma coisa nem de outra. A sua gestão, diga-se, é uma das
financiadoras de uma página que abre seus comentários para os ataques
mais abjetos contra mim — é o chorume do lixo. Não estou nessa atividade
para praticar vinganças pessoais. Interessam-me os procedimentos
institucionais.
O PT está
associado ao PSB do governador Eduardo Campos (PSB) em Pernambuco e em
muitos outros estados e cidades. Campos não aceita apoiar o atual
prefeito. Queria Rands, que foi seu secretário e com quem tem alguns
laços familiares. A intervenção em Recife era uma das exigências para o
PSB apoiar Fernando Haddad em São Paulo. Lula entrou na parada com a
delicadeza habitual, com aquela mesma com que esmagou a pré-candidatura
de Marta, que agora, pelo menos, vai ter tempo de ler Maquiavel…
Faz algum
tempo, ironizei alguns “politicólogos” supostamente independentes, mas
que, na verdade, são petistas. Sustentavam esses valentes que o PT é
mais moderno que os outros partidos porque aposta na renovação e na
novidade. O método empregado em São Paulo e em Recife, na base do
dedaço, indica bem que modernidade é essa. A direção nacional do PT,
saibam, tem a prerrogativa de referendar ou vetar as candidaturas em
cidades com mais de 200 mil habitantes. É uma herança, ainda, do
“Centralismo Democrático” leninista, esse delicioso oximoro, dos antigos
partidos comunistas. Segundo o centralismo, “a base” pode decidir o que
bem entender, desde que o Comitê Central do partido concorde.
Convenham:
não dá para ser sério e esquerdista ao mesmo tempo. O que não quer
dizer, é claro, que todos os direitistas liberais sejam sérios. Quer
dizer apenas que eles têm, ao menos, alguma chance!
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