Para criar mistificações e mitos oficiosos, já existe a Comissão da Anistia; a da Verdade, agora, pelo visto, vai se dedicar à mentira oficialista
A
Comissão da Verdade está assentada numa farsa inicial, que sempre
pautou a Comissão de Anistia — daí que alguns poucos milhares de
anistiados já tenham tido direito a indenizações e pensões que passam
dos R$ 5 bilhões: de um lado da contenda, estariam os heróis; de outro,
os bandidos. De um lado, esquerdistas bondosos e românticos querendo
democracia; de outro, direitistas raivosos e cínicos defendendo a
ditadura. Isso, como tenho escrito há anos, é só má literatura.
“Ah, então
era o contrário?” Não! Também não era o contrário. Trata-se de uma
história sem heróis, sem bonzinhos. Mas algumas farsas não podem e não
devem prosperar. A mais influente, repetida exaustivamente por aí,
sustenta que a luta armada foi a opção desesperada daqueles que não viam
outro modo de enfrentar o regime que decretara o AI-5. O atentado que
vitimou Orlando Lovecchio (ver posts abaixo) prova que não. A ação
ocorreu em março, e o ato que consolidaria a ditadura só em dezembro.
Alguns grupos já haviam decidido que o caminho para instaurar o
socialismo no Brasil era a luta armada antes mesmo do golpe de 1964.
O grande
aparato repressivo montado no país para enfrentar a esquerda armada
matou 424 pessoas — 133 desse grupo são consideradas “desaparecidas”. As
esquerdas, em número muito menor dos que as Forças Armadas e as forças
policiais, assassinaram pelo menos 120. Sim, eram minoritárias,
amadoras, precariamente armadas (na comparação com o estado), mas, como
se vê, notavelmente violentas.
Vamos,
então, ao que interessa. Ora, para “reparar” os eventuais males que o
estado causou aos indivíduos, já existe a Comissão de Anistia. É justo
indenizar pessoas (ou seus familiares) que tenham sido comprovadamente
prejudicadas pelo regime ou que foram torturadas e mortas? Eu acho que
sim! Ocorre que a Comissão de Anistia se transformou num grupo de
concessão de privilégios e prebendas com base em critérios puramente
ideológicos. E muitos vagabundos e espertalhões já foram injustamente
“reparados”… De todo modo, reitero, para cuidar das compensações, já
existe essa turma.
Que sentido
faz criar uma outra comissão, a “da Verdade”, se não for para contar “a
verdade” — ainda que eu repudie, por princípio, grupos estatais que
definam a verdade oficial? E isso, está posto, não será feito. Mais uma
vez, assistiremos, podem apostar, à construção de uma narrativa que vai
se dedicar à hagiografia daqueles santos terroristas, que passarão para a
“história oficial” como guerreiros da liberdade. Não! Alguns eram
notórios assassinos. E eu vou evidenciar isso de uma forma
constrangedora.
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