CRISE DEMONSTRA QUE DILMA AINDA NÃO EXISTE. E, SEM LULA, QUEM NÃO EXISTE É O PT
Alguém
andou soprando maus conselhos aos ouvidos da presidente Dilma Rousseff:
“Mande bala, Soberana; não dê bola pra esse pessoal do Congresso, não,
um bando de fisiológicos! Todos curtidos na cultura do toma lá da cá,
sem ideologia, sem valor, que jamais pensam no bem comum!”
E a Soberana
esqueceu, então, as juras de amor que havia feito justamente a esses
que passaram a ser demonizados por parte ao menos da turma que a cerca.
Atenção, hein: não é que muitos ali não mereçam… Há gente que não vale
mesmo um tostão furado! Mas foi a eles que Dilma apelou para vencer as
eleições, não? Foi quando conquistou essa turma que o petismo, lá atrás,
constituiu a maioria necessária para vencer a eleição. Ou alguém já
esqueceu que parte do PMDB, em 2002, debandou da candidatura Serra,
migrando pra Lula?
Se vocês
procurarem, encontrarão um discurso em que o Apedeuta se jactava,
justamente diante de peemedebistas, de ser muito diferente de FHC; com
um petista no poder, sugeria, era pedir e levar! O lulo-petismo — e a
eleição de Dilma fez parte desse pacote — alçou o modo peemedebista de
fazer política à condição de coisa sublime. Lula era o arquiteto desse
arranjo.
“Mas me
diga, Reinaldo, Dilma faz mal em querer moralizar?” Vênia máxima,
“moralizar exatamente o quê?” A presidente diga qual é o pleito
ilegítimo da tal “base aliada”, que não fizesse parte do pacote, e eu,
então, teria condições de responder. Por enquanto, o que se tem é certo
conversê dos que advogam a existência de um “jeito Dilma de governar”,
segundo o qual ela não condescenderia com práticas danosas para a
República. Quais “práticas danosas”? Eu, até agora, não entendi, por
exemplo, o sentido da ida de Marcelo Crivella (PRB) para o Ministério da
Pesca, por exemplo. A ação faz parte do pacote moralizante da
presidente ou foi só um ato de vontade? Até agora, o máximo que deu para
saber é que ele pretende aprender a botar minhoca no anzol (uma
metáfora, Pedrinho…).
Lula, com
efeito, sabia fazer mais agrados à tal base aliada e coisa e tal, mas
isso certamente tem menos peso do que o fato de que ele estava com o
caixa mais gordo para gastar, o que é sempre uma farra, dada a forma
como o estado brasileiro é loteado entre os partidos. Com a grana curta,
a receita desandou. Mas não se deve menosprezar o fator
“incompetência”, não. A forma como Dilma substituiu os líderes na Câmara
e no Senado era evidência de que estava sob a influência de um mau
conselho. Apontei isso aqui — apenas por amor à lógica. Se a base lhe
tinha mandado um pequeno recado com a recusa de um nome para uma agência
reguladora, cumpria ver até que ponto não tinha condições objetivas de
dar um recado mais duro. E tinha.
Trapalhões
Que o governo reúna hoje um bom grupo de trapalhões, isso é inegável. O episódio da liberação da venda de bebida alcoólica nos estádios o prova mais do que qualquer outra coisa. Há tempos não se via algo semelhante. Mas nem mesmo aquela que parecia ser a solução — uma estupenda manifestação de covardia — bastou.
Que o governo reúna hoje um bom grupo de trapalhões, isso é inegável. O episódio da liberação da venda de bebida alcoólica nos estádios o prova mais do que qualquer outra coisa. Há tempos não se via algo semelhante. Mas nem mesmo aquela que parecia ser a solução — uma estupenda manifestação de covardia — bastou.
O governo
anda um tanto descolado da realidade. Hoje, antes da derrota sofrida na
Câmara, Gilberto Carvalho, secretário-geral da Presidência e homem mais
importante no PT depois de Lula, previa um dia tranquilo. Pois é…
Essa crise
tem nomes: “Lula e Dilma”. Certa feita, em 2010, o então presidente da
República afirmou que, pela primeira vez desde 1989, a urna não traria o
seu nome entre os postulantes à Presidência da República — evidência de
que o PT não se renovava, não é? E emendou que, onde se leria “Dilma”,
dever-se-ia ler “Lula”. Ocorre que ela, como se vê, definitivamente, não
é ele. A rigor, ela ainda não é nem mesmo “Dilma”, como personalidade
política autônoma e capaz de liderar o processo político. Vai ser algum
dia?
Torço para
que o indivíduo Lula se recupere — há quem não acredite nisso, claro!
Paciência! Quem me conhece sabe que falo a sério. Minha torcida tem um
aspecto humano, nada instrumental. Os petistas, no entanto, sem prejuízo
de eventualmente compartilharem desse sentimento altruísta, têm motivos
pragmáticos, muito oportunistas, para ansiar pela volta do seu líder.
Sem Lula, o PT, definitivamente, não existe.
PS:
Os fazedores de notícia do Planalto já espalham que novas pesquisas
indicam que a popularidade de Dilma aumentou: estaria sendo vista como
aquela que, depois de combater a corrupção, combate também a fisiologia.
Já escrevi a respeito. Se os “dilmistas” acham que esse tipo de
proselitismo é um bom caminho, dou a maior força, hehe. Noto, até em
benefício da governanta, que Lula sempre usou a sua popularidade contra a
oposição. Se alguém acha uma boa idéia usá-la contra os aliados, só me
resta dizer: “Vá em frente, Soberana!”
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